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Blog da Petrobrás é apenas a ponta do iceberg

Desde o dia 2/06/2009 estamos acompanhando o impacto do lançamento e as repercussões do blog Fatos e Dados da Petrobrás. Um embate de gente grande, de um lado o poder da maior empresa brasileira que, além de tudo, é estatal; e de outro os grandes jornais do país, representando o poder da informação. No meio disso tudo a questão forte: uma efetiva e perigosa quebra da relação fonte-veículo de informação. A Petrobrás, ao publicar no blog perguntas e respostas a ela enderaçadas pelos jornais O Estado de S. Paulo, Folha de S. Paulo e O Globo (um material tipicamente de apuração) coloca em questão a atividade mais básica do jornalismo que é a edição. Isso sem falar que tal atitude também põe no mesmo pacote o papel de mediação, a credibilidade, a ética, entre outros pontos fundantes.

Na origem, o blog foi criado, segundo texto da própria empresa para apresentar “fatos e dados recentes da Petrobras e o posicionamento da empresa sobre as questões relativas à Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI)“. Tudo certo, em princípio, pois, num momento de dinamismo comunicacional a Petrobrás optou pelo formato blog, bastante adequado à situação. Esse Intermezzo não vai detalhar ainda mais o tema sob o ponto de vista dos preceitos jornalísticos. Muitas foram as avaliações e destacamos os posts dos professores Rogério Christofoletti e Wilson Bueno, e do blog Dicas de um Fuçador. Sem contar, claro, com a enormidade de posts que surgem no Twitter. Em resumo, a Petrobrás apenas faz uso daquilo que está disponível gratuitamente da web para posicionar-se. Se ela usa adequadamente ou não é tema para outro post.

Gostaria de comentar, um pouco mais, sobre o fato de que, uma grande empresa estatal, ao entrar no mundo da web 2.0, se constituindo como um novo pólo de emissão na rede, ameaça os tradicionais emissores de nossa sociedade em seu papel constituído do Quarto Poder. O fato, em seu todo, inaugura uma nova etapa de reconstituição de forças do poder da informação, só possível nos ambientes de mídias sociais. A gritaria geral da imprensa tradicional (hiper justificável pela questão jornalística) também se dá pela incapacidade de nossos veículos se defrontarem com a prática da web 2.0 e sua multiplicidade de vozes.

Para essa discussão remeto ao texto do professor Jeff Jarvis que analisa a convivência entre jornalismo e blogs em recente ação do The New York Times. Sua frase: “...here we see a clash over journalistic culture and methods – product journalism v. process journalism” deixa claro que a questão é cultural e essencialmente de método.  Penso ir mais adiante vinculando cultura e métodos ao ambiente de mídias sociais em redes digitais.

O primeiro ponto é saber se as empresas informativas sabem como agir em rede. Se sabem o que significa para sua marca, imagem e credibilidade informativa estar em paridade com múltiplos emissores, jornalísticos ou não, e especialmente dialogar com os elos fortes e fracos de múltiplas redes. A novidade para os grandes nomes da mídia tradicional, ao que parece, é buscar um novo papel para si nesse cenário: ser o influenciador favorito para os usuários/leitores. Como se destacar em intensidade, importância e referência, diante de um conjunto diversificado que compõe as redes sociais na web.

No caso específico do blog da Petrobrás como, apesar da força informativa que a empresa pretende impor, tornar-se o provedor de informação favorito para os interessados no tema. É possível?

O segundo ponto, bem mais sensível, é a mudança cultural e formativa do profissional. Aqui a palavra-chave é mudança. Irreversível. O que assistimos, hoje, no ambiente brasileiro é um descompasso no ritmo dessas mudanças. No presente momento vemos a academia, Ministério da Educação e as entidades representativas da indústria em discussão “lenta e gradual” das novas diretrizes curriculares para os cursos de jornalismo e da obrigatoriedade do diploma, pautados pelos preceitos da preservação da espécie; e de outro lado temos o ambiente em ebulição, que faz suas mudanças a toque de caixa, que exige posturas de ação-reação típicas do meio digital e que deixa prá trás quem está fora de compasso.

Nesse contexto, estariam os nossos profissionais preparados para a dinâmica contemporânea? Profissionais, empresas informativas e escolas querem efetivamente promover mudanças? Rápidas?

Por fim, enquanto as empresas informativas buscam entender o que é estratégia de diferenciação no mundo 2.0, e  a academia e as instituições hesitam em absorver uma nova cultura, corre em paralelo o embate entre o padrão de produção e consumo da informação no impresso e no online. Na era da informação 2.0, para Jeff Jarvis, o “mito da perfeição”  de processo jornalístico que todo profissional almeja entra em crise quando confrontado ao novo patamar de relacionamento e diálogo exigido por um ambiente de multiplicidade de vozes.

Na verdade, o blog da Petrobrás apenas desencadeou uma discussão que estava abrigada no nível subliminar de nosso Jornalismo. A ponta de um enorme iceberg de rota desconhecida.

(Beth Saad)

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12 comentários sobre “Blog da Petrobrás é apenas a ponta do iceberg

  1. oi beth,

    excelente maneira de analisar o tema indo além do óbvio embate que todos estão apontando. apesar de talvez deselegante, o movimento da petrobras mostra que em tempos “2.0” empresas tentam – e conseguem – estabelecer relacionamentos de informação diretamente com o público sem precisar passar apenas pela publicidade. e, querendo ou não, os veículos vão ter que se adaptar isso, da mesma forma que tiveram (tem) que se adaptar à presença mais forte do público como produtor de conteúdo.

    por outro lado, algo que me chamou a atenção neste movimento da petrobras foi quem sabe uma distante equivalência com o que certos movimentos sociais faziam (fazem?) com veículos de comunicação que dão coberturas parciais ou absolutamente desfavoráveis: dificultar acesso a acampamentos, impedir repórteres de gravar etc, enfim – não será a primeira nem única forma de pressão que a mídia tem que aguentar.

    • Theo, fica claro com essa “virada” positiva que a Petrobrás desencadeou que a mudança já está estabelecida. E que também os movimentos de mudança são cíclicos, à semelhança dos movimentos sociais como vc cita. Agora, a mídia está numas de se colocar como o tal iceberg, mastodôntico e imóvel…. vai chegar um tsunami e leva o monstrinho enxirrada abaixo.

  2. Eliseu Barreira Junior disse:

    Beth, excelente reflexão. Sobre o caso, é interessante observarmos como as grandes publicações se posicionaram. O editorial do “Estadão” de hoje, intitulado “Petrobrás tenta intimidar”, dá claros sinais do chamado “mito da perfeição”.

    • Eliseu, acho que estamos passando por um momento marcante da mídia e do jornalismo brasileiro em geral. Nosso papel, professores, pesquisadores, analistas, alunos engajados, é olhar para tudo isso como uma excelente oportunidade de tomada de posição, e de paticipação nesse novo ambiente.

  3. Pingback: O quinto poder e a Petrobrás « Relações Públicas Online

  4. no fim das contas, a web 2.0 para a imprensa tradicional serviu apenas para criar blogs de opinião, onde jornalistas “renomados” vão a farra, disparam para todos os lados sem o menor pudor ou preocupação com o bom jornalismo… ou seja, a web 2.0 é um jornalismo mais agressivo e mais sujo, sem a preocupação de parecer ético, correto…

    • Junior, penso que sua opiniào sobre a web 2.0 é um tanto radical, já que ela não existe só e pelo jornalismo. Penso que os jornalistas deveriam aprender a conviver e a usar a web 2.0 antes de fazere uso dela.

  5. Mário disse:

    O Blog da Petrobras gera uma discussão bastante promissora sobre informação, democratização e o papel das organizações nesse contexto. Durante muitos anos, a imprensa tradicional (aqui , não me refiro aos meios em si, mas às organizações gestoras dos veículos) mostrou-se imbuída do estandarte de defensora do interesse público, legionária da verdade, em uma postura mítica e por vezes sinalizada como heróica. Ao assumirmos que acesso à informação completa é requisito paera cidadania, os veículos tradicionais, por consegüinte, ganhavam uma posição de formadores de cidadãos.

    Entretanto, a defesa por um acesso irrestrito à informação conviveu, de modo incoerente, com os filtros editoriais inerentes ao modo como a imprensa se constituiu – seja pelo método jornalístico adotado, seja pela estrutura e interesses empresariais do próprio veículo. Em momentos críticos da história do país, em que todos os canais eram ferozmente obstruídos ou redirecionados pela censura, o fortalecimento de empresas jornalísticas e a resistência de várias delas contribuiu sobremaneira para a sociedade, clareando as penumbras informacionais que sufocavam qualquer lampejo democrático. Contudo, em um mundo em que as tecnologias digitais permitiram a multiplicação de acesso a vozes diversas, tanto os públicos quanto aqueles que chamamdos tradicionalmente de fontes ganharam espaços para produção e difusão de seus próprios conteúdos, sem intermediação direta de mídias consolidadas. Neste ambiente múltiplo, soa incoerente pensar que democratizar a informação significa preservar o papel exclusivo dos veículos tradicionais em mediar os temas de interesse público.

    Em uma analogia simples – excetuando-se outras variáveis – pode ser observado o fenômeno da Wikipedia em relação às enciclopédias tradicionais, no que se refere ao papel de mediação do conhecimento e credibilidade. Uma primeira reação ao modelo colaborativo foi justamente questionar qual a confiabilidade de algo que poderia ser aletrado por qualquer um, a qualquer momento? Entretanto, o grande ganho da Wiki foi justamente mostrar que é justamente o fato de seu conteúdo estar aberto a tudo e a todos e sob vigilância constante, que dá a ela credibilidade e diversidade maiores que qualquer enciclopédia. Milhares de fontes especializadas ao redor do mundo jamais teriam a oportunidade de contribuir com um verbete da Barsa podem corrigir, em tempo real, possíveis equívocos e contribuir com informações novas e constantes.

    Quando a Petrobras, empresa de maior reputação do país (segundo estudo do Reputation Institute – 2009), busca uma maneira de apresentar seus pontos de vista diretamente a seus públicos e dialogar com eles em um mesmo espaço, relativiza o lugar (antes intransponível) de mediador universal, ocupado pela da imprensa. Esta relativização, em si, não é nova. Acontece diariamente, quando um simples cidadão, com uma câmera de aparelho celular, registra uma cena urbana e “posta” em um portal colaborativo de vídeos ou seu próprio blog, com seus comentários. Entretanto, o fato de a maior empresa do país – e, por conseguinte, objeto de grande interesse público por informação em diversos temas – adotar uma nova postura consolida essa situação. Isso gera grande desconforto nos veículos que, inclusive, têm nestas informações a base de seu trabalho para várias editorias e, do ponto de vista empresarial, uma parte essencial da cadeia de valor de seu negócio.

    Cabe alertar que, embora a discussão da relação fonte-veículo tenha ganhado grande repercusão, deve-se ampliar o debate para observarmos as consequencias e possibilidades destas novas posturas para aqueles que são o fundamento de todas as discussões: os públicos. Afinal, é em nome do interesse deles que a imprensa, a Petrobras e todas as organizações justificam sua atuação. Quanto mais diversas forem as vozes e os meios para que sejam alcançadas, maior possibilidade de realmente falarmos e, talvez atingirmos uma democratização séria e efetiva da informação.

  6. Pingback: Blog Fatos e Dados da Petrobras « PontoComPontoOrg

  7. Muito bom o comentário sobre este novo mundo que força a democracia goela abaixo das tradicionais empresas de mídia de mercado.
    A internet tal qual a televisão, chamada de aberta, não é gratuita, parece gratuita, alguém paga. A sustentabilidade vem dos anúncios das empresas que veiculam onde há mais audiência.
    Acredito que a Petrobrás otimizou seu tempo com jornalistas e também ganhou segurança nas respostas.
    Ainda não vi nenhuma empresa seguir o modelo.
    A deputada Luiza Erundina falou sobre a Conferência Nacional de Comunicação, um evento importante para o país, pois mexe na oligarquia da mídia, voz das empresas e dos políticos que são controlados por ela. Fiz um vídeo e coloquei no blog para quem quiser entender o que é a Confecom que acontecerá em dezembro, tá pertinho, dias 1,2 e 3.
    A comunicação é o primeiro poder e hoje faz a cultura, dá o tema e ajuda a condenar pessoas e ideologias.
    O assunto é apaixonante e as discussões gigantescas..rs..vou parar por aqui…parabéns pelo blog. Abs

  8. Pingback: Um pouco + sobre @bethsaad, @carolterra e @alexprimo. « marianarrpp

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