A twitter litteracy de nossas celebridades e gurus: cada um no seu quadrado?

Mais uma vez exponho neste Intermezzo a questão sobre o uso descontextualizado de ferramentas digitais de comunicação. É a vez do Twitter. Não tenho qualquer pretensão de criar aqui um discurso “dita regras” ou “ciber-cri-cri”,  já que a compreensão e o uso de uma mídia tem tudo a ver com a forma social na qual se insere. Ou seja: cada um no seu quadrado? Nem tanto…

Seja por obrigação profissional e acadêmica, ou ainda por vocação de nosso blog, cabe criticar, refletir, discutir, dialogar sobre os temas de comunicação digital. Blogs, redes sociais, jornalismo online, carreira são apenas alguns pontos que recentemente pautamos aqui.

A recentíssima migração para o twitter de figuras deste Brasil que podem ser categorizadas (termos cunhados pela própria mídia) como celebridades, gurus, comunicadores influentes, comunicadores emergentes, pioneiros, entre outros, tem chamado a atenção: alardeiam no ciber e no papel números recordes de seguidores, “conversam” com essa massa numérica e distribuem “olás” e “obrigados” rede afora. OK! Novamente cada um no seu quadrado?

Nem tanto, já que esse grupo de tuiteiros neófitos têm em comum, quase sempre, origem ou atuam no mundo da comunicação e, portanto e supostamente, são referência para uma enorme quantidade de pessoas. E, analisando algumas celebrities timelines no twitter, são poucas as que exercem seu papel de influenciador corretamente com relação ao twitter.

Antes de tudo, que tal retormarmos o que é e para que serve o twitter? Falamos de uma ferramenta típica para ambiências digitais em formato de rede social, caracterizada como microblog por incorporar a postagem como forma expressiva, cometários e disseminação (o RT) como forma de socialização e interação. Tudo isso com o diferencial de objetividade de conteúdo (140 caracteres) e inclusão de hiperlinks, resultando num poderoso objeto social em tempo real, que leva seguidos e seguidores a um proceso de nagevação contextualizada na web.

Entender e aplicar pelo menos uma parte disso é o que chamo de twitter litteracy. Claro que não se pode exigir de qualquer tuiteiro a aplicação irrestrita do conceito proposto pela ferramenta. No mínimo, utópico. Mas, há que se refletir sobre a sistemática transposição de conceitos e indicadores da “velha mídia” que as twitter celebrities tupiniquins praticam e acabam por virar referência de como usar esta incrível rede social.

Acabei por criar uma listinha de pequenos desvios de uso do twitter que merecem discussão por parte do leitores do Intermezzo. Penso que cada um dos itens é um novo post/comentários em potencial:

  • Foco constante na ampliação da quantidade de seguidores, não importa quem são, como e de onde foram capturados. Algo parecido com índices de audiência e de circulação de tempos quantitativos de mensuração.
  • Extrema dificuldade em produzir algo coerente e útil para os seguidores em 140 caracteres. Algo de “torpedos” aparece como resultado.
  • Culto ao ego e respectivas peripécias vida afora. Sem falar de egos que rapidinho viram “nós” e portadores da opinião coletiva. Algo de “narciso” cai bem.
  • Uso da rede de seguidores (que sempre deve ser grande como símbolo de sucesso…) para realizar enquetes nonsense, fazer propaganda velada ou explícita de produtos, serviços, eventos e que tais. Algo de comercial em causa própria  parece adequado.
  • Disseminação  do mau uso da mal-tratada Língua Portuguesa: pontuação, erros de grafia, concordância, e similares. Algo de irresponsável é cabível.
  • Desagradável tendência em alardear que o twitter é um grande brincadeira ou parque de diversões. O momento de descontração, lazer e tornar-se igual por parte da celebridade ou do guru. Algo de imaturo fica no ar.
  • Raríssima condição para a proposição de objetos sociais em seus posts. Por acaso algum link, alguma foto, algum ponto de ancoragem que gera conhecimento foram propostos para os seguidores?  Algo de…..

Claro  que poderia  continuar listando, ou criticando. Mas, gostaria de propor aos leitores uma pausa prá olhar a cena e sermos razoavelmente criteriosos em nossa função comunicacional.

A grande maioria dos pontos indicados já ocorreu em momentos anteriores do mundo ciber, desde a descrença ancestral dos profissionais no potencial de comunicação da web, até descaracterizações mais recentes como no caso dos blogs (já discutido no Intermezzo). O que decepciona é que, quase sempre, influentes gurus da comunicação e mobilizadores das massas, preferem usar errado ao invés de buscarem aprender, conhecer e exercer adequadamente o uso de uma nova mídia.  Fica mais fácil bagunçar e manter o status quo do que se dar ao trabalho de fazer do modo correto. Afinal, o que importa é o volume de uma audiência em aplauso embevecido, e não a qualidade da mensagem, ainda que para poucos multiplicadores.

Ufa! Breve desabafo pessoal (portanto, sem links e referências autorais) neste último post de 2009.

Merry, merry Christmas e and a very happy new year!!!!!!!!

Em tempo: esse post tem caráter genérico e, propositadamente, não cita qualquer identidade no twitter que venha a contextualizar a opinião.

(Beth Saad)

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7 comentários sobre “A twitter litteracy de nossas celebridades e gurus: cada um no seu quadrado?

  1. Gustavo Medrado disse:

    “O que decepciona é que, quase sempre, influentes gurus da comunicação e mobilizadores das massas, preferem usar errado ao invés de buscarem aprender, conhecer e exercer adequadamente o uso de uma nova mídia. ”

    Quanta arrogância. De qual cartilha foi extraída essa concepção de que ‘uso adequado’ do Twitter? Não venho defender o uso que tais gurus e celebridades fazem dessa rede social, mas argumentar que eles a usam de modo equivocado tão somente por que não usam do modo como achamos ideal é típico da Academia e sua auto-importância arcaica.

    • Prezado Gustavo, antes de mais nada, concordo em gênero e número com as colocações do André de Abreu, um dos co-autores deste Intermezzo.
      Não vou questionar seu juízo de valor com relação à arrogância. Como diz o próprio título do post “cada um no seu quadrado”, não é? É sua opinião. Agora, gostaria de questionar, sim, duas coisas: sua visão sobre o papel arcaico da academia e a nossa posição com relação ao que é “certo” ou ërrado” no campo dos gurus e comunicadores nas mídias sociais.
      Se vc acompanha este Intermezzo (um blog coletivo) sabe que nossa linha editorial sempre se pautou pela reflexão e pela crítica sobre os diferentes temas da comunicação digital. Portanto, o post em questão cumpre seu papel reflexivo, já que é uma das muitas funções profissionais dos autores do Intermezzo, envolvidos com pesquisa, ensino e também com o mercado. Assim, os termos certo e errado podem ser entendidos, especialmente por parte de quem lê e acompanha os acontecimentos do mundo digital, como “adequado” e “inadequado” com relação às boas práticas, preceitos e tentativas de uniformização que pessoas como nós e também outros de importância na rede como Jeff Jarvis, Henry Jenkins, Paul Bradshaw, e muitos outros com quem compartilhamos experiências.
      O segundo ponto, refere-se ao fato da academia arcaica. Todos os autores deste blog, além de pesquisadores e professores/orientadores de graduação e pós-graduação atuam fortemente na vida real do mercado de mídia e comunicação digital (lembre-se, similar aos autores acima citados e muitos outros mais que posso lhe indicar), apenas pelo óbvio fato de que as ocorrências do mundo digital acontecem primeiro no dia-a-dia para posteriormente buscarmos a reflexão e a conceituação. Completamente inviável estarmos fora do dia-a-dia, pelo contrário! Portanto, as afirmações aqui postadas não se originam em posicionamentos arcaicos por total falta de sustentação.
      Espero que com isso tenhamos esclarecido suas dúvidas e questões, mas seria saudável de sua parte indicar onde está o arcaísmo, não sem antes buscar na rede o que os autores do Intermezzo têm publicado, disseminado, e realizado no mundo digital. Apenas para constatar qual seu entendimento sobre produção e posturas arcaicas.
      Da mesma forma que estamos, como autores, expostos na rede, com nosos perfis abertos e públicos, gostaria, também que vc se identificasse, pois, tive alguma dificuldade em encontrá-lo na rede.

  2. Caro Gustavo, concordo em termos com seu argumento. É justamente a falta de academia no campo da comunicação e da web, a falta de cientificidade, que faz com que muitas ações na web dos influentes gurus da comunicação e mobilizadores das massas – se não todas – sejam tomadas com base apenas no feeling e no bom senso de seus criadores.

    Nessa história, o cliente, desconhecendo o assunto a fundo, acaba entregando sua presença na web em troca de um bom discurso com pseudoresultados.

    Eu fico imaginando se os médicos resolvessem adotar esse critério e resolvessem fazer algum experimento para encarar uma nova doença apenas com base no bom senso e na experiência, e não com base em estudos, pesquisas e incansáveis testes que garantam que a operação ou o remédio vá funcionar.

    Ainda bem que pelo menos a medicina, a engenharia e a arquitetura ainda acreditem na “auto-importância arcaica” acadêmica para encarar os desafios do dia-a-dia de suas atividades e que pena que a maioria daqueles que trabalham com comunicação e com web pensem que feeling e experiência sejam suficientes para resolver os problemas dos clientes.

  3. Direto ao ponto: o título deste post me fez acreditar que algo diferente seria dito. Quando penso em “cada um no seu quadrado” em referência a redes formadas por sites como Twitter e Facebook, penso justamente na infinidade de possibilidades que elas oferecem. Uma timeline pode tanto ser formada por posts de jornalistas, quanto por feeds de portais ou apenas por tweets de atores da Globo. Ou seja, cabe ao usuário escolher os elementos quer formarão aquela que será a SUA rede, o que derruba qualquer regra universal, a meu ver: cada um usa o Twitter de acordo com suas necessidades e anseios. Tenho uma dificuldade grande em compreender esta vontade incontrolável de criar uma única fôrma e querer encaixar tudo dentro dela. Não é possível que existam variadas fôrmas? É o que penso.

    Creio que os “defeitos” expostos no post vão além da questão de o usuário ser neófito ou não. É uma questão de opção. De querer usar o Twitter para simplesmente responder àquela questão primeira: “O que você está fazendo?”, que hoje virou: “O que está acontecendo?”.

    • georgeumbrasileiro disse:

      Prezada Beth,
      Antes de mais nada, gostaria de deixar claro que admiro o blog, que “sigo” e recomendo em minha página desde quando o descobri sem querer há pouco tempo, enquanto buscava “pareceres informados” sobre os usos do Orkut para minha pesquisa em telenovelas que vem se “digitalizando” inevitavelmente…
      A Vanessa já disse praticamente tudo o que eu gostaria de comentar, então faço minhas, suas palavras, e só adiciono que talvez, nesse sentido, olhando de fora, a arrogância a que o Gustavo se refere, de um modo um tanto quanto grosseiro, seja mero reflexo de um provável descuido até mesmo inconsciente da autora que, na condição de acadêmica, não deixa claro que também aprendende a cada dia sobre os usos e desusos da ferramenta em questão. Talvez, a arrogância acadêmica referida se encontre em uma suposta, e talvez inconsciente também, obrigação de “ditar” o que é e o que não é, em vez de se buscar aprender com os “reles mortais” com mais frequência. A própria ferramenta busca constantemente aprender com o fluxo dinâmico de seus usuários. Mas tudo bem, afinal trata-se apenas de um desabafo! :)
      Por último, quanto ao seu ponto sobre a suposta disseminação do mau uso da mal-tratada língua portuguesa, bem, isso dá muito, mas muito pano pra manga, e nesse caso, a dificuldade dos acadêmicos brasileiros, portugueses e, claro, franceses, em geral, em aceitar o dinamismo linguístico é incrivelmente maior do que a dos britânicos, por exemplo. Um texto sobre o “mirandês” falado em Portugal na revista Piauí desse mês me fez pensar bastante na dificuldade em aprender e na distância do português oficial falado por uma minoria de brasileiros, mas isso não vem muito ao caso. Só um pouco… Particularmente, prefico enxergar o “tuitês” como um mero gênero, forjado pelo meio, nada mais. Assim como o “torpedês”, ao qual você se refere.
      A propósito, uma dúvida: Literacy, escrito com tt seria um mero erro de grafia, ou um trocadilho com Twitter?
      Abs,
      George

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