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Cibercultura, Estudos acadêmicos, Eventos

Octavio Ianni e o legado do príncipe eletrônico

Em maio de 2004 a ECA-USP fez homenagem póstuma ao Professor Octavio Ianni e eu tive a honra de participar falando de sua fase intelectual vinculada à globalização e ao mundo digital.

Por inspiração do André de Abreu achei oportuno republicar o texto aqui no Intermezzo como forma de “reinaugurar” as publicações de nosso blog. Nem sempre constantes, mas com alguma reflexão.

Vejam o texto na íntegra:

Inicialmente, gostaria de agradecer à comissão organizadora pelo convite para este depoimento. É um privilégio vivenciar esse momento, homenageando o Professor Dr. Octavio Ianni, cuja participação em minha formação intelectual remonta aos tempos de quando cusávamos o clássico ou o científico, quando seus livros, às vezes escondidos entre estantes, eram garimpados na biblioteca e disputados pelos colegas nos anos negros após de 1968. Uma participação subliminar que perdurou até os anos de proximidade e convivência aqui na ECA-USP não só como colegas na docência, mas especialmente, como um referencial de vitalidade, inquietação intelectual e generosidade no compartilhamento de seus conhecimentos com alunos e quaisquer colegas.

Aqui destaco e agradeço, em primeiro lugar, às sutis ou radicais transformações produzidas em orientandos e alunos de pós-graduação da linha de pesquisa Jornalismo, mercado e Tecnologia, que freqüentaram seus cursos, ou tiveram a honra em ter o Professor Ianni em suas bancas de qualificação e defesa. Todas resultaram em ampliação de horizontes e pontos de luzes na formação desses novos pesquisadores. Neles ficaram implantadas as sementes da investigação e da inovação.

Coube-me o honroso papel de discorrer sobre as recentes reflexões do professor nos campos da comunicação e da sociedade digitais e também sobre o papel das novas tecnologias de informação e comunicação, segundo suas próprias palavras, “em revelar o seu empenho para explicar o que vai pelo mundo globalizado”.

Apesar da comunicação e mídias digitais serem meu foco como pesquisadora já há mais de dez anos, pesam-me a responsabilidade e a ousadia ao propor esta breve revisão do pensamento do Professor Octavio Ianni.

O texto “O Príncipe Eletrônico”, publicado no ano 2000, como parte do livro Enigmas da Modernidade – Mundo tem sido adequadamente utilizado como a principal referência no conjunto de reflexões críticas, mas também realistas, da relação quase incestuosa que se estabeleceu entre o processo de globalização político-econômica e sociocultural e o desenvolvimento e utilização das tecnologias de informação e comunicação, de base eletrônica e digital como instrumento desse processo tão multifacetado.

Retomando pontual e rapidamente os conceitos descritos pelo professor acerca do Príncipe eletrônico, vemos que em diferentes momentos históricos de ruptura sempre houve uma presença principesca catalisadora com capacidade de transformação dos paradigmas social, político e econômicos vigentes.

Assim foi com o príncipe de Maquiavel, representado por uma pessoa real, um líder capaz de conciliar sua virtú (liderança), com a fortuna (as condições sócio-políticas). Maquiavel, consiglere de uma sucessão de lideranças da família Médici, em Florença sustentou política e ideologicamente as presenças principescas que marcaram a emergência do renascimento na história do Ocidente.

Também assim foi com o Moderno Príncipe de Gramsci, onde a representação principesca concentra-se no partido político como a entidade social (abre aspas) “empenhada em expressar as inquietações dos seus seguidores, mas simultaneamente capaz de interpretar as inquietações e reivindicações dos outros setores da sociedade”. O moderno príncipe traz a ruptura da luta de classes pela soberania e pelo poder; traz a ruptura do socialismo e, consequentemente, a ruptura da radicalização das elites.

Cabe, portanto, uma pergunta: seria o Príncipe eletrônico a representação de uma vigente ruptura histórico-social que ultrapassa os limites da política e instala-se nos âmbitos do indivíduo e também da identidade coletiva?

Antes de uma resposta definitiva, que nem mesmo o próprio Professor Octavio Ianni apresentou sem as devidas ponderações, gostaria de recuperar alguns pontos de seu pensamento, refletidos em textos, entrevistas e seminários que – se analisados conjuntamente – demonstram que a ruptura ora vivenciada pela parceria entre globalização e redes digitais de comunicação e informação é paradigmática e fundamentalmente transformadora.

São estes “insight points” que sustentam o Príncipe Eletrônico, e refletem tipicamente as características de uma nova sociedade, pautada pela totalidade social e pelo intelectual coletivo, segundo suas próprias palavras.

Este insights merecem um parêntesis para ressaltar uma das características mais inesquecíveis de Octavio Ianni: sua vitalidade intelectual encontrável apenas em pessoas especiais, possibilitando vivenciar o contemporâneo, refletir e pesquisar sobre ele e produzir idéias e posicionamentos para à frente de seu tempo.

Bem, vamos a estes pensamento-chave:

O primeiro aspecto da mudança de paradigma social que alimenta o príncipe eletrônico é a necessidade de aproximação entre ciências e humanidades. Ianni, inspirado no texto literário de C.P. Snow, “Duas Culturas”, vincula as ciências sociais às revoluções científicas, resultando nas possibilidades de novos estilos de pensamento baseados na linguagem como um meio de conexão e diálogo.

Para Ianni, a transição do século XX para o XXI insere-se na hipótese de que algumas revoluções científicas ocorrem no âmbito de revoluções culturais mais abrangentes e, nesse contexto, estaríamos vivenciando uma ruptura histórica acompanhada de uma ruptura epistemológica a revelarem-se mais abertamente nas décadas futuras.

Caberá, segundo Ianni, às ciências sociais, à filosofia e às artes o papel de descobrir ou inventar novos horizontes, respondendo às inquietações, tensões, vibrações e ilusões que podem estar germinando no espírito da época.

Nesse contexto reside a criatividade e a inventividade do Príncipe Eletrônico.

Surge, então, um segundo aspecto, limitador da criatividade do Príncipe Eletrônico, por conta das características uniformizadoras, totalizantes e desterritorializadas da globalização: a utilização dos meios de comunicação (fruto da produção científica) como uma técnica social cuja linguagem (fruto da produção social) tem o poder da ambigüidade entre revelação e manipulação.

O terceiro aspecto levantado por Ianni que irá contribuir para a formação da identidade do príncipe eletrônico, opostamente ao anterior, refere-se à uma espécie de onipresença principesca de pensamento de uma sociedade civil mundial. Uma onipresença representada pela multiplicação dos espaços e aceleração dos tempos em todas as direções, em todas as esferas de atividades e de imaginação que (abre aspas) “graças às tecnologias eletrônicas com as quais se globaliza ainda mais intensa e generalizadamente a globalização”.

Cria-se aqui o locus do príncipe eletrônico: o ciberespaço.

O quarto ponto de pensamento refere-se ao papel da mídia neste locus do príncipe. Em entrevista ao site iColetiva, o Professor Octavio Ianni afirma que (abre aspas) “a mídia hoje não é mais nacional. Se você procurar nos jornais que você lê, se procurar qual agência noticiosa que está informando sobre os acontecimentos, você não encontra. Às vezes, o jornal , com muita parcimônia registra a fonte lá no cantinho de uma página. E eles nunca tornam transparente a forma como eles “cozinham” as matérias na redação. E as matérias, às vezes, vêm totalmente preparadas por agências de alcance mundial. Todo jornal hoje tem um quê de CNN”.

Agrega-se ao Príncipe Eletrônico mais uma característica controversa: a parcialidade de opinião, aquela que promove uma ilusão de pensamento unificado conforme os interesses das instituições, corporações e entidades que movem a engrenagem da aldeia global que, segundo as palavras do professor, (abre aspas) “de tal modo se influenciam contínua e sistematicamente as mentes e os corações de indivíduos e coletividades, povos e nações, em todo o mundo; com o que se criam, reproduzem e multiplicam as multidões solitárias, vagando e flutuando através do novo mapa do mundo, do novo palco da história”.

O quinto e último ponto de reflexão proposto por Ianni refere-se ao contraponto das condições e possibilidades entre linguagem e sociedade. Para ele, palavra, linguagem e narrativa sob todas as suas formas, podem ser ecos de harmonias e cacofonias produzidas no âmbito das formas de sociabilidade e nos jogos das forças sociais. Ao considerarmos o cenário social de transição via globalização, passam a predominar as linguagens eletrônicas, informáticas cibernéticas, virtuais. Para Ianni (abre aspas) “em poucas décadas, todas as formas de literalidade e oralidade, compreendendo a aula, o discurso do poder, a conversação, o entretenimento, a comunicação, a informação a mídia, o livro, a revista, o jornal são desafiados pela imagem, o videoclipe, o hipertexto, o cibertexto, a multimídia. Em pouco tempo, a palavra enquanto signo da modernidade é recoberta pela imagem enquanto signo da pós-modernidade”.

Acredito ser agora, após uma breve revisão dos pensamentos-chave de Octávio Ianni, o momento de buscarmos respostas sobre quem é e a quem representa o Príncipe eletrônico condottieri da sociedade global, arquiteto da agora eletrônica.

Formalmente, o professor define o Príncipe Eletrônico como uma entidade nebulosa e ativa, presente e invisível, predominante e ubíqua, permeando continuamente todos os níveis da sociedade, em âmbito local, nacional, regional e mundial. É o intelectual coletivo e orgânico das estruturas e blocos de poder presentes, predominantes e atuantes em escala nacional, regional e mundial, sempre em conformidade com os diferentes contextos socioculturais e político-econômicos desenhados no novo mapa do mundo.

Ocorre que não podemos deixar de relembrar suas palavras e efetiva ação ao recorrer à viagem, tanto como metáfora quanto como realidade, para explicar que “todo cientista social realiza algum tipo de viagem enquanto estuda, ensina e pesquisa [...] a viagem pode alterar o significado do tempo e do espaço, da história e da memória, do ser e do devir. [...] a rigor, cada viajante abre seu caminho, não só quando desbrava o desconhecido, mas inclusive quando redesenha o conhecido”.

Assim, se levarmos em conta a faceta de viajante do cientista social Octavio Ianni, podemos dizer que sua configuração de Príncipe Eletrônico resulta de uma viagem desbravadora pelos desconhecidos mares das tecnologias digitais de informação e comunicação, registrada numa espécie de diário de bordo. Tal viagem, somada à sua vivência intelectual é que configurou o redesenho da figura principesca que sempre permeou nossa história.

Figura essa agora digitalizada e globalizante.

O Ser, se assim podemos nos referir ao indefinido, resultante é um tanto assustador. Não é apenas a mídia amplificada pelas tecnologias digitais. Também não é apenas a representação invisível de instituições políticas e sociais dominantes, ou agente das corporações transnacionais. O Príncipe Eletrônico é tudo isso e um tanto mais: está a serviço de um mundo sistêmico, globalizante e, portanto, excludente; é dissimulado e permeável porque simultaneamente se põe a serviço da pluralidade e da democratização da informação; é especialista na criação de simulacros de realidades – mitos fluidos, líderes momentâneos, espetacularização da política e de políticos; é articulador de uma vasta e complexa rede de mercados, idéias e mercadorias; é manipulador e controlador das massas provocando a impressão de que tudo navega no presente presentificado, petrificado.

Além de tudo isso, o Príncipe Eletrônico possui um atributo que deixa virtú, fortuna e o partido político em segundo plano – ele beneficia-se amplamente dos recursos tecnológicos digitais, colocando sob o seu controle os recursos narrativos que permitem tanto registrar e divulgar como enfatizar e esquecer, ou relembrar e enervar. Tal contexto faz com que as possibilidades de consciência se descolem contínua e reiteradamente da realidade, da experiência ou da existência.

Mas, não podemos esquecer que tais atributos são relativos à máquina, ao sistema eletrônico. E máquinas, no dizer do professor Ianni, não possuem mentes.

Finalizando, acredito que o Professor Octavio Ianni deixa para todos nós, docentes, pesquisadores e estudantes alguns desafios. Deixa acesa a permanente chama da viagem, da descoberta, e da perseguição a uma única resposta ainda não obtida: quem é o Príncipe eletrônico?

Coerente à sua trajetória intelectual, acadêmica e política, Octávio Ianni caracteriza o Príncipe Eletrônico, mas não assume uma postura de aceitação, de passividade ou de conformismo com relação ao irreversível predomínio das tecnologias digitais nos meios de comunicação. Pelo contrário. Ele nos deixa com a responsabilidade de continuar a pesquisa e a viajar pelos caminhos e brechas libertárias oferecidas pelo próprio Príncipe.

Incansável, também nos deixa como legado a crença no poder da resistência e da nossa preservação, enquanto comunicadores, das características de atenção e de reação a cada manobra do Príncipe. Sem contestações, o Príncipe também poderá estar a serviço da valorização da cidadania, da formação de uma ampla democracia.

As forças de resistência e mudança estão nas mentes e nos corações e não nas máquinas.

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Colaboração e competição online: Onde está o balão vermelho?

Estava folheando a revista Época Negócios dessa semana quando encontrei um pequeno texto que falava de uma experiência com redes sociais realizada pelo Darpa. Pesquisas desse tipo acontecem aos montes. Mas achei curisamentew interessante o Darpa fazer algo neste sentido.

Para quem não sabe, o Darpa é a agência de pesquisa militar dos EUA. Está ligado ao Pentágono. A sigla significa “Defense Advanced Research Projects Agency” — algo como “Agência de Pesquisas em Projetos Avançados”.

Como bem lembrou André de Abreu nos comments, foi o Darpa que criou em 1969 a ARPANET – primeira rede operacional de computadores à base de comutação de pacotes, ou seja, a precursora da nossa Internet.

Segundo informa a revista, o experimento serviu para o Darpa entender melhor os mecanismos de colaboração online.

A experiência militar com redes sociais foi a seguinte:

-> O pessoal do Darpa instalou 10 balões atmosféricos vermelhos em diferentes cidades dos Estados Unidos.

-> Depois, o órgão divulgou que pagaria 40 mil dólares para a primeira pessoa (ou equipe) que informasse com precisão a latitude e longitude de cada balão.

-> Os interessados em ganhar o prêmio deveriam recorrer ao Twitter, Facebook e afins (também sites e aplicativos diversos) para descobrir o ponto geográfico exato dos objetos.

O que aconteceu?

Bem, entraram na competição uma equipe do MIT, um grupo de cientistas de Harvard e outros 4 mil competidores.

Depois de muita apuração e checagem de informações, a equipe do MIT venceu: em pouco mais de 8 horas conseguiu dizer exatamente onde estavam os dez balões vermelhos.

Havia balões em regiões pouco populosas — como o deserto do Arizona — e outros em cidades mais movimentadas, tipo São Francisco.

Após o concurso, o Darpa falou à imprensa sobre o evento. Isso foi em dezembro do ano passado. Há notícias no NYT, Guardian e CNN….

Compilei as mais interessantes conclusões, vejamos:

  • A colaboração em rede social tende a funcionar melhor em casos pontuais, com custo zero e que conduzam a uma solução verificável. Exemplo? Localizar bombas e evitar ataques terroristas. As redes podem nunca servir para encontrar a cura do câncer, por exemplo. Além disso, têm força em momentos de crise. Ou seja, em situações agudas.
  • A colaboração desinteressada dos usuários é geralmente exceção, não regra. O MIT, por exemplo, se comprometeu a remunerar os colaboradores que fornecessem dados corretos sobre os balões. O grupo usou um esquema de “coleta em pirâmide“: pagamentos diferentes de acordo com a proximidade física da pessoa com o balão. O sujeito que avistasse, com os próprios olhos, um balão vermelho do Darpa e enviasse a localização para o MIT poderia ganhar até 2 mil dólares. O Darpa acredita que eles foram os vencedores por conta deste “estímulo” financeiro.
  • Outro ponto que o Darpa ressaltou é que muitos usuários plantaram informações falsas nas redes sociais com o intuito de atrapalhar os concorrentes. Os competidores mais bem sucedidos foram os que criaram hierarquias para julgá-los. Os mais confiáveis eram os que vinham de fontes conhecidas ou mais próximas.

É claro que o Darpa queria saber a rapidez com que as pessoas podem usar as redes sociais online para resolver um problema de âmbito nacional. Por isso, vale muito a pena ficar de olho em experimentos militares e em suas conclusões. Aliás, o Darpa está no Twitter… @darpa_news

Mas eu pergunto: é possível generalizar tais conclusões?

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Digimétodos ou a metodologia da pesquisa em tempos digitais

O chavão “não se pode navegar em novos mares com mapas antigos” talvez caiba na abertura desse post. Com os fenômenos comunicacionais se reconfigurando sob a mediação das mídias digitais e das redes sociais os métodos tradicionais de pesquisa talvez não sejam mais válidos ou não possam mais ser utilizados da maneira usual.

As técnicas de etnografia continuam válidas ao analisarmos redes complexas como Facebook ou Twitter? Pensando nisso, reproduzo aqui uma pequena bibliografia copilada pela professora Maria Immacolata Vassalo de Lopes sobre webmétodos; são autores que buscam justamente uma nova metodologia da pesquisa em comunicação levando em conta as mudanças que o digital trouxe para esse campo do conhecimento. Por isso eu prefiro o termo digimétodos. Afinal, eles são válidos não só para a análise do ambiente web, mas também para outros cenários digitais, como o do celular e dos videogames:

(Andre de Abreu)

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10o. ISOJ/UTexas – Austin: mídia digital em transformação, outra vez!

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O International Symposium on Online Journalism – ISOJ ocorreu nos dias 17 e 18 de abril, reunindo jornalistas, publishers e pesquisadores para discurtir o status da mídia digital e do jornalismo online nos Estados Unidos, Europa e América Latina. O Brasil foi representado por esta blogueira, Beth Saad, e pela Márion Strecker, Diretora de Conteúdo do UOL.

O evento, como sempre, bastante concorrido, teve como um dos temas mais polêmicos a crise que vem abalando especialmente o mercado informativo norte-americano. A grande maioria das opiniões concordou que a crise está nos modelos de negócio das empresas de mídia e não no jornalismo em si. Este, pelo contrário, está “forte, em seu melhor momento e cada vez mais criativo por conta da diversidade de ferramentas e aplicativos disponíveis para seu exercício“, segundo o consultor e professor mexicano Gabriel Sama. Na mesma linha de raciocínio, e adjetivando mais uma etapa de mudanças nos modelos de negócio, o criador e organizdor do ISOJ, Rosental Calmon Alves afirmou em seu discurso de abertura que a indústria jornalística está passando por um processo de mídiamorfose (conceito criado por Roger Fidler, autor de livro com o mesmo nome) e não por um midiacídio, tema que Rosental vem desenvolvendo desde 2005. Ele reforça a questão sugerindo que atualmente as empresas informativas estão vivenciando uma evolução em seus negócios e não uma revolução, passando por uma total desconstrução do atual sistema de mídia.

caminhos-cruzados1Para quem acompanha as transformações da indústria da mídia, seus negócios, estratégias e cultura, foi possível constatar nos dias do simpósio que mais uma vez surge uma encruzilhada, um momento de decisão, onde as empresas repensam a essência de seus negócios, o perfil de seus profissionais e, principalmente, o formato de seu conteúdos.

Temas como mensuração, UGC (conteúdo gerado pelo usuário), ferramentas de apoio ao conteúdo e narrativa – twitter em destaque, e avolta do backpack journalist foram intensamente discutidos.

O download dos papers e dos power points apresentados no ISOJ está disponível na página do Simpósio.

Iremos, em novos posts nesse Intermezzo fazer uma análise dos temas que mais impactaram e que têm uma maios vinculação com nosso ambiente informativo brasileiro.

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O mito do texto curto

Fita métricaJá passamos da primeira década de internet disseminada e ainda ouço de alunos e colegas a máxima: “Na internet, o texto tem que ser curto, não é?”. Não, não é.

Definindo

Desde os primórdios, o hiperlink permite, entre outras coisas, a fragmentação de qualquer conteúdo em pedaços, ou chunks, em inglês. Com isso, deixamos a cargo do usuário decidir o quanto ele irá se aprofundar em determinado assunto.

Essa é uma das principais vantagens do texto digital em relação ao analógico. No segundo, como há limitações de tempo e espaço, o jornalista diariamente imagina quem é o seu leitor e faz uma auto-seleção de quais termos merecem um desenvolvimento ou não. Por exemplo, um jornalista do Mais! – caderno do jornal Folha de S.Paulo sobre cultura – certamente se sente à vontade ao discorrer sobre Schopenhauer, pois imagina que a média dos seus leitores conhecerá o filósofo. Por outro lado, o repórter do jornal Extra, periódico popular do Rio de Janeiro, seria obrigado a fazer uso de um longo aposto para contextualizar o seu público-alvo sobre quem é o autor e o que ele fez de importante.

Pequenos preconceitos e grandes limitações

O jornalismo tradicional é formado por esses pequenos e praticamente inconscientes preconceitos. Na prática, nem todos os leitores do caderno Mais! são eruditos e nada garante que os do Extra não o são. Entretanto, pelas limitações do suporte, o jornalista é obrigado a desenhar em sua imaginação o público-alvo e moldar seu texto a ele.

Além disso, os suportes tradicionais são limitados por suas características. Eles não atendem plenamente nem o especialista e nem aquele que desconhece o assunto. Continuando com o exemplo do Schopenhauer, o jornalista pode fazer uso de recursos como o aposto ou o box para tornar o texto mais acessível. Correto? Errado. Na verdade, essas saídas soarão enfadonhas para o especialista e ineficaz para o leigo, já que elas não oferecem grandes aprofundamentos.

O hiperlink – assim como o hipertexto e a hipermídia – chega para dar um salto qualitativo em termos de redação. Pela primeira vez, podemos fazer um texto curto do qual se ramificam conexões que levarão a um aprofundamento. Dessa forma, um especialista pode se contentar com um nível mais superficial da informação enquanto o leigo, de acordo com o interesse, tem à disposição diversas conexões que o levam a conteúdos realmente detalhados.

Já pensou o que seria da internet como fonte de pesquisa se todos levassem a sério o mito do texto curto? Mudar a maneira como se aprendeu a escrever é difícil. Como começar a escrever de forma não-linear e em camadas depois de toda uma vida alfabetizado na linearidade. Tanto não é fácil que praticamente nenhum veículo faz uso do hipertexto de forma avançada. A maioria ainda escreve para a web como se escrevesse para um jornal e produz conteúdo em vídeo como se estivesse produzindo para a televisão. Em seus livros, MURRAY e SALAVERRÍA já debateram intensamente o fenômeno da subutilização dos recursos do meio digital. Por esse motivo, o texto não precisa ser, necessariamente, curto. O ideal é darmos condições aos usuários, por meio dos hiperlinks, para decidirem o quão curta ou extensa será a leitura de acordo com os interesses e repertórios de cada um.

Mas, afinal, de onde surgiu esse mito?

“A culpa é do Nielsen”

Em 1997, o especialista em usabilidade Jakob Nielsen (foto) publicou o artigo “How Users Read on the Web“. Nesse estudo, ele demonstra o quanto o texto curto, com destaques visuais e à base de marcadores tornam a leitura na internet mais eficaz.

Ele está certo. Um texto nesse formato tem mais chances de ser lido do que parágrafos e mais parágrafos dissertativos. Entretanto, não podemos nos esquecer de três pontos antes de repercutir o texto de Nilsen:

  • A análise feita por ele mediu aspectos fisiológicos do comportamento. Do ponto de vista do conforto, um texto de acordo com as características propostas realmente funciona melhor. Entretanto, o fator interesse não foi levado em conta. É esse fator que faz os leitores do Observatório da Imprensa escreverem para o site reclamando que alguns artigos ficaram curtos demais.
  • A pesquisa foi feita em universo bastante restrito e Nielsen deixa isso bem claro. Quem lê os prefácios dos livros dele percebe a preocupação em deixar claro que estamos falando de recomendações que devem ser analisadas e adaptadas dentro de um contexto particular, e não dogmas universais.
  • Há 12 anos, predominavam os monitores CRT que, notavelmente, tornavam a leitura diante da tela bem mais cansativa em relação aos atuais de LCD.

Entretanto, a leitura superficial desse artigo foi parar nos livros, que foi parar nas mãos dos professores que, até hoje, cuidam da perpetuação do mito do texto curto entre os jovens jornalistas. Aqueles mesmos que, após quatro anos, estarão nas redações digitais, se tornarão editores e passarão essa máxima equivocada adiante fomentando um ciclo que atrasa, e bastante, o desenvolvimento de uma narrativa jornalística que usufrua plenamente os recursos do ambiente digital.

(Andre de Abreu)

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