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Cibercultura, Estudos acadêmicos, Eventos

Octavio Ianni e o legado do príncipe eletrônico

Em maio de 2004 a ECA-USP fez homenagem póstuma ao Professor Octavio Ianni e eu tive a honra de participar falando de sua fase intelectual vinculada à globalização e ao mundo digital.

Por inspiração do André de Abreu achei oportuno republicar o texto aqui no Intermezzo como forma de “reinaugurar” as publicações de nosso blog. Nem sempre constantes, mas com alguma reflexão.

Vejam o texto na íntegra:

Inicialmente, gostaria de agradecer à comissão organizadora pelo convite para este depoimento. É um privilégio vivenciar esse momento, homenageando o Professor Dr. Octavio Ianni, cuja participação em minha formação intelectual remonta aos tempos de quando cusávamos o clássico ou o científico, quando seus livros, às vezes escondidos entre estantes, eram garimpados na biblioteca e disputados pelos colegas nos anos negros após de 1968. Uma participação subliminar que perdurou até os anos de proximidade e convivência aqui na ECA-USP não só como colegas na docência, mas especialmente, como um referencial de vitalidade, inquietação intelectual e generosidade no compartilhamento de seus conhecimentos com alunos e quaisquer colegas.

Aqui destaco e agradeço, em primeiro lugar, às sutis ou radicais transformações produzidas em orientandos e alunos de pós-graduação da linha de pesquisa Jornalismo, mercado e Tecnologia, que freqüentaram seus cursos, ou tiveram a honra em ter o Professor Ianni em suas bancas de qualificação e defesa. Todas resultaram em ampliação de horizontes e pontos de luzes na formação desses novos pesquisadores. Neles ficaram implantadas as sementes da investigação e da inovação.

Coube-me o honroso papel de discorrer sobre as recentes reflexões do professor nos campos da comunicação e da sociedade digitais e também sobre o papel das novas tecnologias de informação e comunicação, segundo suas próprias palavras, “em revelar o seu empenho para explicar o que vai pelo mundo globalizado”.

Apesar da comunicação e mídias digitais serem meu foco como pesquisadora já há mais de dez anos, pesam-me a responsabilidade e a ousadia ao propor esta breve revisão do pensamento do Professor Octavio Ianni.

O texto “O Príncipe Eletrônico”, publicado no ano 2000, como parte do livro Enigmas da Modernidade – Mundo tem sido adequadamente utilizado como a principal referência no conjunto de reflexões críticas, mas também realistas, da relação quase incestuosa que se estabeleceu entre o processo de globalização político-econômica e sociocultural e o desenvolvimento e utilização das tecnologias de informação e comunicação, de base eletrônica e digital como instrumento desse processo tão multifacetado.

Retomando pontual e rapidamente os conceitos descritos pelo professor acerca do Príncipe eletrônico, vemos que em diferentes momentos históricos de ruptura sempre houve uma presença principesca catalisadora com capacidade de transformação dos paradigmas social, político e econômicos vigentes.

Assim foi com o príncipe de Maquiavel, representado por uma pessoa real, um líder capaz de conciliar sua virtú (liderança), com a fortuna (as condições sócio-políticas). Maquiavel, consiglere de uma sucessão de lideranças da família Médici, em Florença sustentou política e ideologicamente as presenças principescas que marcaram a emergência do renascimento na história do Ocidente.

Também assim foi com o Moderno Príncipe de Gramsci, onde a representação principesca concentra-se no partido político como a entidade social (abre aspas) “empenhada em expressar as inquietações dos seus seguidores, mas simultaneamente capaz de interpretar as inquietações e reivindicações dos outros setores da sociedade”. O moderno príncipe traz a ruptura da luta de classes pela soberania e pelo poder; traz a ruptura do socialismo e, consequentemente, a ruptura da radicalização das elites.

Cabe, portanto, uma pergunta: seria o Príncipe eletrônico a representação de uma vigente ruptura histórico-social que ultrapassa os limites da política e instala-se nos âmbitos do indivíduo e também da identidade coletiva?

Antes de uma resposta definitiva, que nem mesmo o próprio Professor Octavio Ianni apresentou sem as devidas ponderações, gostaria de recuperar alguns pontos de seu pensamento, refletidos em textos, entrevistas e seminários que – se analisados conjuntamente – demonstram que a ruptura ora vivenciada pela parceria entre globalização e redes digitais de comunicação e informação é paradigmática e fundamentalmente transformadora.

São estes “insight points” que sustentam o Príncipe Eletrônico, e refletem tipicamente as características de uma nova sociedade, pautada pela totalidade social e pelo intelectual coletivo, segundo suas próprias palavras.

Este insights merecem um parêntesis para ressaltar uma das características mais inesquecíveis de Octavio Ianni: sua vitalidade intelectual encontrável apenas em pessoas especiais, possibilitando vivenciar o contemporâneo, refletir e pesquisar sobre ele e produzir idéias e posicionamentos para à frente de seu tempo.

Bem, vamos a estes pensamento-chave:

O primeiro aspecto da mudança de paradigma social que alimenta o príncipe eletrônico é a necessidade de aproximação entre ciências e humanidades. Ianni, inspirado no texto literário de C.P. Snow, “Duas Culturas”, vincula as ciências sociais às revoluções científicas, resultando nas possibilidades de novos estilos de pensamento baseados na linguagem como um meio de conexão e diálogo.

Para Ianni, a transição do século XX para o XXI insere-se na hipótese de que algumas revoluções científicas ocorrem no âmbito de revoluções culturais mais abrangentes e, nesse contexto, estaríamos vivenciando uma ruptura histórica acompanhada de uma ruptura epistemológica a revelarem-se mais abertamente nas décadas futuras.

Caberá, segundo Ianni, às ciências sociais, à filosofia e às artes o papel de descobrir ou inventar novos horizontes, respondendo às inquietações, tensões, vibrações e ilusões que podem estar germinando no espírito da época.

Nesse contexto reside a criatividade e a inventividade do Príncipe Eletrônico.

Surge, então, um segundo aspecto, limitador da criatividade do Príncipe Eletrônico, por conta das características uniformizadoras, totalizantes e desterritorializadas da globalização: a utilização dos meios de comunicação (fruto da produção científica) como uma técnica social cuja linguagem (fruto da produção social) tem o poder da ambigüidade entre revelação e manipulação.

O terceiro aspecto levantado por Ianni que irá contribuir para a formação da identidade do príncipe eletrônico, opostamente ao anterior, refere-se à uma espécie de onipresença principesca de pensamento de uma sociedade civil mundial. Uma onipresença representada pela multiplicação dos espaços e aceleração dos tempos em todas as direções, em todas as esferas de atividades e de imaginação que (abre aspas) “graças às tecnologias eletrônicas com as quais se globaliza ainda mais intensa e generalizadamente a globalização”.

Cria-se aqui o locus do príncipe eletrônico: o ciberespaço.

O quarto ponto de pensamento refere-se ao papel da mídia neste locus do príncipe. Em entrevista ao site iColetiva, o Professor Octavio Ianni afirma que (abre aspas) “a mídia hoje não é mais nacional. Se você procurar nos jornais que você lê, se procurar qual agência noticiosa que está informando sobre os acontecimentos, você não encontra. Às vezes, o jornal , com muita parcimônia registra a fonte lá no cantinho de uma página. E eles nunca tornam transparente a forma como eles “cozinham” as matérias na redação. E as matérias, às vezes, vêm totalmente preparadas por agências de alcance mundial. Todo jornal hoje tem um quê de CNN”.

Agrega-se ao Príncipe Eletrônico mais uma característica controversa: a parcialidade de opinião, aquela que promove uma ilusão de pensamento unificado conforme os interesses das instituições, corporações e entidades que movem a engrenagem da aldeia global que, segundo as palavras do professor, (abre aspas) “de tal modo se influenciam contínua e sistematicamente as mentes e os corações de indivíduos e coletividades, povos e nações, em todo o mundo; com o que se criam, reproduzem e multiplicam as multidões solitárias, vagando e flutuando através do novo mapa do mundo, do novo palco da história”.

O quinto e último ponto de reflexão proposto por Ianni refere-se ao contraponto das condições e possibilidades entre linguagem e sociedade. Para ele, palavra, linguagem e narrativa sob todas as suas formas, podem ser ecos de harmonias e cacofonias produzidas no âmbito das formas de sociabilidade e nos jogos das forças sociais. Ao considerarmos o cenário social de transição via globalização, passam a predominar as linguagens eletrônicas, informáticas cibernéticas, virtuais. Para Ianni (abre aspas) “em poucas décadas, todas as formas de literalidade e oralidade, compreendendo a aula, o discurso do poder, a conversação, o entretenimento, a comunicação, a informação a mídia, o livro, a revista, o jornal são desafiados pela imagem, o videoclipe, o hipertexto, o cibertexto, a multimídia. Em pouco tempo, a palavra enquanto signo da modernidade é recoberta pela imagem enquanto signo da pós-modernidade”.

Acredito ser agora, após uma breve revisão dos pensamentos-chave de Octávio Ianni, o momento de buscarmos respostas sobre quem é e a quem representa o Príncipe eletrônico condottieri da sociedade global, arquiteto da agora eletrônica.

Formalmente, o professor define o Príncipe Eletrônico como uma entidade nebulosa e ativa, presente e invisível, predominante e ubíqua, permeando continuamente todos os níveis da sociedade, em âmbito local, nacional, regional e mundial. É o intelectual coletivo e orgânico das estruturas e blocos de poder presentes, predominantes e atuantes em escala nacional, regional e mundial, sempre em conformidade com os diferentes contextos socioculturais e político-econômicos desenhados no novo mapa do mundo.

Ocorre que não podemos deixar de relembrar suas palavras e efetiva ação ao recorrer à viagem, tanto como metáfora quanto como realidade, para explicar que “todo cientista social realiza algum tipo de viagem enquanto estuda, ensina e pesquisa [...] a viagem pode alterar o significado do tempo e do espaço, da história e da memória, do ser e do devir. [...] a rigor, cada viajante abre seu caminho, não só quando desbrava o desconhecido, mas inclusive quando redesenha o conhecido”.

Assim, se levarmos em conta a faceta de viajante do cientista social Octavio Ianni, podemos dizer que sua configuração de Príncipe Eletrônico resulta de uma viagem desbravadora pelos desconhecidos mares das tecnologias digitais de informação e comunicação, registrada numa espécie de diário de bordo. Tal viagem, somada à sua vivência intelectual é que configurou o redesenho da figura principesca que sempre permeou nossa história.

Figura essa agora digitalizada e globalizante.

O Ser, se assim podemos nos referir ao indefinido, resultante é um tanto assustador. Não é apenas a mídia amplificada pelas tecnologias digitais. Também não é apenas a representação invisível de instituições políticas e sociais dominantes, ou agente das corporações transnacionais. O Príncipe Eletrônico é tudo isso e um tanto mais: está a serviço de um mundo sistêmico, globalizante e, portanto, excludente; é dissimulado e permeável porque simultaneamente se põe a serviço da pluralidade e da democratização da informação; é especialista na criação de simulacros de realidades – mitos fluidos, líderes momentâneos, espetacularização da política e de políticos; é articulador de uma vasta e complexa rede de mercados, idéias e mercadorias; é manipulador e controlador das massas provocando a impressão de que tudo navega no presente presentificado, petrificado.

Além de tudo isso, o Príncipe Eletrônico possui um atributo que deixa virtú, fortuna e o partido político em segundo plano – ele beneficia-se amplamente dos recursos tecnológicos digitais, colocando sob o seu controle os recursos narrativos que permitem tanto registrar e divulgar como enfatizar e esquecer, ou relembrar e enervar. Tal contexto faz com que as possibilidades de consciência se descolem contínua e reiteradamente da realidade, da experiência ou da existência.

Mas, não podemos esquecer que tais atributos são relativos à máquina, ao sistema eletrônico. E máquinas, no dizer do professor Ianni, não possuem mentes.

Finalizando, acredito que o Professor Octavio Ianni deixa para todos nós, docentes, pesquisadores e estudantes alguns desafios. Deixa acesa a permanente chama da viagem, da descoberta, e da perseguição a uma única resposta ainda não obtida: quem é o Príncipe eletrônico?

Coerente à sua trajetória intelectual, acadêmica e política, Octávio Ianni caracteriza o Príncipe Eletrônico, mas não assume uma postura de aceitação, de passividade ou de conformismo com relação ao irreversível predomínio das tecnologias digitais nos meios de comunicação. Pelo contrário. Ele nos deixa com a responsabilidade de continuar a pesquisa e a viajar pelos caminhos e brechas libertárias oferecidas pelo próprio Príncipe.

Incansável, também nos deixa como legado a crença no poder da resistência e da nossa preservação, enquanto comunicadores, das características de atenção e de reação a cada manobra do Príncipe. Sem contestações, o Príncipe também poderá estar a serviço da valorização da cidadania, da formação de uma ampla democracia.

As forças de resistência e mudança estão nas mentes e nos corações e não nas máquinas.

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Tendências para um mundo sociodigital

Descrever tudo o que aconteceu na Conferência Internacional de Redes Sociais, que aconteceu em Curitiba entre os dias 11 e 13 de março, é uma tarefa inglória. Afinal, um encontro que reuniu mais de 3 mil pessoas e 100 palestrantes – entre eles Steven Johnson, Clay Shirky e Pierre Lévy – só pode resultar em um turbilhão de ideias e tendências que busquei resumir nos tópicos a seguir:

Redes sociais e as cidades

Ao contrário do que se previa, a cada ano mais e mais pessoas estão deixando o campo e vivendo nas cidades. Em 2007, 3,3 bilhões de pessoas moravam em grandes centros; em 2050 estima-se que esse número chegue a 6,4 bilhões.

De acordo com Clay Shirky, “quanto maior e mais densa a concentração de pessoas mais precisaremos desenvolver ferramentas de comunicação e informação eficazes para ambientes populosos como as grandes cidades”. O autor do livro Here Comes Everybody relembra o sistema pneumático muito utilizado na comunicação dos primeiros arranha-céus para que as pessoas não precisassem mais subir ou descer dezenas de andares para se comunicarem uma com as outras. As redes sociais e a internet terão papel fundamental em aperfeiçoar a comunicação e potencializar a extração de inteligência das informações geradas pelos habitantes desses centros.

Steven Johnson concorda e complementa: “a internet é essencial principalmente às grandes cidades. Nas pequenas, as pessoas conseguem ter noção de tudo aquilo que ocorre em sua volta, do novo restaurante da rua principal à posse de um novo legislador. Já a proporção que algumas cidades tomaram fez com que seus moradores perdessem essa noção do todo e a internet e seus dados acabaram se tornando fundamentais para o melhor aproveitamento do espaço público.

Rede de coisas

O volume atual de dispositivos conectados à rede é estimado em 1 trilhão, principalmente por conta dos videogames e dos celulares. A recente queda da rede do Playstation 3 fez com que todos enxergassem uma promessa antiga: a internet não é mais formada apenas por computadores e sim por todo tipo de gadget fruto do processo de digitalização iniciado na década de 80.

Isso faz com que possamos estar em contato direto entre o mundo virtual e o mundo real e um dos grandes exemplos dessa integração é o FourSquare. Esse aplicativo para celulares cria uma rede social orgânica, pois novas conexões podem surgir em tempo real baseadas na localização de cada indivíduo.

Integração real x virtual

Casos famosos como a trilogia de vídeos de Dave Caroll contra a United Airlines utilizaram o poder da web para reverberar uma mensagem, porém não para mobilizar pessoas em torno dela. Esse movimento de aversão à companhia aérea acabou surgindo como “efeito colateral” da atitude do cantor, e não de forma planejada.

Entretanto, o fato de as pessoas estarem cada vez mais conectadas faz com que aumentem o número de iniciativas que utilizam as redes sociais virtuais para mobilizar grupos em torno de causas ou em prol de mudanças no mundo real de forma estruturada. Exemplos não faltaram durante os três dias de evento, como o PatientsLikeMe, SeeClickFix, MeetUp e o KickStarter.

 

Privacidade, excesso de informação e PKM

A presença em todas as redes sociais traz implicações como o excesso de exposição e a perda de privacidade. Porém, Steven Johnson relembra que isso não pode ser usado como argumento para abandoná-las. Pelo contrário, precisamos usufruir tudo isso que é oferecido por elas, mas sabendo preservar nossa intimidade. Steven sugere, inclusive, que isso seja ensinado nas escolas às crianças desde os primeiros anos.

As questões relacionadas ao indivíduo inserido nas redes sociais também foram assunto da fala de Pierre Lévy que abordou a gestão pessoal do conhecimento no último dia da conferência. O filósofo francês acredita que o “problema não está no excesso de informação e sim na ausência de critérios individuais de foco e de escolha de fontes confiáveis a seguir”. Para contornar esse problema, Lévy propõe um método composto de nove etapas, além do uso de processos e ferramentas de PKM (personal knowledge management):

  1. Gestão da atenção
  2. Conexão com fontes valiosas
  3. Agregar/Coletar fluxos de informação
  4. Filtragem
  5. Categorização
  6. Registro para memória de longo prazo
  7. Síntese
  8. Compartilhar/comunicar
  9. Reassess (retrofluxo do processo)

O saldo desta troca intensa de interações mostra que temos ainda um grande campo a ser explorado. A onipresença da tecnologia faz com que ela se entrelace às nossas vidas de uma maneira que praticamente não percebamos mais sua existência. Isso faz com que, finalmente, as atenções se voltem para o ponto de onde jamais deviam ter saído: as pessoas.

(Andre de Abreu)

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Colaboração e competição online: Onde está o balão vermelho?

Estava folheando a revista Época Negócios dessa semana quando encontrei um pequeno texto que falava de uma experiência com redes sociais realizada pelo Darpa. Pesquisas desse tipo acontecem aos montes. Mas achei curisamentew interessante o Darpa fazer algo neste sentido.

Para quem não sabe, o Darpa é a agência de pesquisa militar dos EUA. Está ligado ao Pentágono. A sigla significa “Defense Advanced Research Projects Agency” — algo como “Agência de Pesquisas em Projetos Avançados”.

Como bem lembrou André de Abreu nos comments, foi o Darpa que criou em 1969 a ARPANET — primeira rede operacional de computadores à base de comutação de pacotes, ou seja, a precursora da nossa Internet.

Segundo informa a revista, o experimento serviu para o Darpa entender melhor os mecanismos de colaboração online.

A experiência militar com redes sociais foi a seguinte:

-> O pessoal do Darpa instalou 10 balões atmosféricos vermelhos em diferentes cidades dos Estados Unidos.

-> Depois, o órgão divulgou que pagaria 40 mil dólares para a primeira pessoa (ou equipe) que informasse com precisão a latitude e longitude de cada balão.

-> Os interessados em ganhar o prêmio deveriam recorrer ao Twitter, Facebook e afins (também sites e aplicativos diversos) para descobrir o ponto geográfico exato dos objetos.

O que aconteceu?

Bem, entraram na competição uma equipe do MIT, um grupo de cientistas de Harvard e outros 4 mil competidores.

Depois de muita apuração e checagem de informações, a equipe do MIT venceu: em pouco mais de 8 horas conseguiu dizer exatamente onde estavam os dez balões vermelhos.

Havia balões em regiões pouco populosas — como o deserto do Arizona — e outros em cidades mais movimentadas, tipo São Francisco.

Após o concurso, o Darpa falou à imprensa sobre o evento. Isso foi em dezembro do ano passado. Há notícias no NYT, Guardian e CNN….

Compilei as mais interessantes conclusões, vejamos:

  • A colaboração em rede social tende a funcionar melhor em casos pontuais, com custo zero e que conduzam a uma solução verificável. Exemplo? Localizar bombas e evitar ataques terroristas. As redes podem nunca servir para encontrar a cura do câncer, por exemplo. Além disso, têm força em momentos de crise. Ou seja, em situações agudas.
  • A colaboração desinteressada dos usuários é geralmente exceção, não regra. O MIT, por exemplo, se comprometeu a remunerar os colaboradores que fornecessem dados corretos sobre os balões. O grupo usou um esquema de “coleta em pirâmide“: pagamentos diferentes de acordo com a proximidade física da pessoa com o balão. O sujeito que avistasse, com os próprios olhos, um balão vermelho do Darpa e enviasse a localização para o MIT poderia ganhar até 2 mil dólares. O Darpa acredita que eles foram os vencedores por conta deste “estímulo” financeiro.
  • Outro ponto que o Darpa ressaltou é que muitos usuários plantaram informações falsas nas redes sociais com o intuito de atrapalhar os concorrentes. Os competidores mais bem sucedidos foram os que criaram hierarquias para julgá-los. Os mais confiáveis eram os que vinham de fontes conhecidas ou mais próximas.

É claro que o Darpa queria saber a rapidez com que as pessoas podem usar as redes sociais online para resolver um problema de âmbito nacional. Por isso, vale muito a pena ficar de olho em experimentos militares e em suas conclusões. Aliás, o Darpa está no Twitter… @darpa_news

Mas eu pergunto: é possível generalizar tais conclusões?

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Entre egos e a realidade: a grande mídia na berlinda do DigitalAge 2.0 2009

O painel em ação

O painel em ação

Ao que tudo indica (confiram o blog), o painel “A crise da mídia tradicional. Quem vai publicar as notícias que vão alimentar a conversa?” colocou pimenta nos olhos dos participantes e da platéia. Para mim, como mediadora, foi uma ótima oportunidade de reiterar ao vivo e a cores todas as opiniões que venho postando aqui no Intermezzo em tempos recentes: as tradicionais marcas de mídia no Brasil posicionam-se entrincheiradas e resistentes à inovação.

Assistimos a um interessante embate entre egos das personalidades mais conhecidas presentes, até com o surgimento de uma nova denominação para as mídias tradicionais: agora é de bom tom referir-se a elas como “mídias clássicas”. Também assistimos a uma tentativa de desvio temático no painel, onde quase todos os participantes centraram-se no antagonismo novas e velhas mídias.

A proposta de discussão do painel nunca esteve centrada nesse antagonismo. Pelo contrário. O objetivo do painel sempre foi discutir algo mais amplo: a mudança de postura estratégica e cultural de nossas empresas de mídia a partir das tendências globais hoje em curso; o novo patamar de relacionamento com os públicos, integrando a força das redes sociais; e a busca de um novo modelo de negócios dentro do novo contexto. Para contextualizar as discusões, o jornalista Clayton Melo do IDGNow publicou uma excelente entrevista com esta escriba  no blog do evento, e também foi disponibilizada a apresentação que fiz como introdução ao tema.

Embates e egos à parte, o painel resultou numa demonstração de que seus temas principais não eram o foco de atenção de nossos publishers. Ficamos sem saber as respectivas opiniões sobre o que interessa: o mundo da informação digital está mais uma vez em transição e qual seria o posicionamento do Estadão, da Época, da CBN e de um especialista sobre o que vem pela frente?

Durante minha introdução ao tema do painel nossos colegas foram instigados com interessantes vertentes da discussão: a síndrome da periodicidade versus fluxo informativo contínuo; o uso desconfigurado do blog como coluna de opinião e do twitter como substituto de feeds RSS; a integração da voz e opinião dos usuários; e as diferentes formas de geração de receitas. Nada disso pareceu perturbar nossos tótens jornalisticos ali fincados.

Para o Digital Age 2010 proponho colocar pimenta malagueta da boa na mesa: que tal o debate com que já vivencia transição e mudança mundo afora?

(Beth Saad)

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A comunicação de governo e o mundo digital: acordaram?

ForumMidiasSociais140709 (11)Esse post surge na sequência da palestra que fiz no Fórum de Mídias Sociais, em 14/07/2009, em Brasília. O evento foi organizado pela SECOM – Secretaria de Comunicação da Presidência da República. Pelo título já podem inferir minhas impressões iniciais: ainda faltam muitos passos no percurso digital; ainda é preciso entender e se posicionar na web 1.0 prá depois se encantarem com blogs, campanhas tipo Obama e similares; ainda bem que prestaram atenção no tema.

Tentando resumir toda a cena:

Encontrei ali alguns poucos núcleos de percepção e uso contemporâneo da web e das redes sociais, a exemplo do Ministério da Cultura, com uma interessante equipe envolvida e atualizada e com uma política de Cultura Digital definida e com um projeto de ação no mundo das redes; também o Ministério da Saúde, utilizando a web na linha de prestação de serviços e esclarecimento à população, em formato muito oportuno; a própria SECOM buscando construir o novo Portal e lançando a versão beta do Blog do Planalto, com um sério esforço em compor uma equipe jovem e atualizada, mas com uma boa dose de limitações estruturais e, especialmente, culturais e políticas diante da perspectiva de diálogo em rede.

Primeira visualização oficial do Blog do Planalto

Primeira visualização oficial do Blog do Planalto

Encontrei ali, também, uma platéia lotada (precisou colocar telão no saguão do auditório), constituída de assessores de comunicação dos diferentes órgãos governamentais. Uma platéia que me passou a sensação de que eu “falava grego” mas, que esse grego era o que todos deveriam ter aprendido, mas perderam o bonde e, agora, a sociedade lhes cobra atualização.

Encontrei ali núcleos de resitência diante do novo. Normal em qualquer processo de inovação tecnológica paradigmático. Resistência um tanto agravada quando falamos de Governo, onde os profissionais estão mais preocupados em buscar a PortariaX que vai respaldar sua ação de comunicação tradicional e possibilitar, por exemplo, processar por falsidade ideológica o usuário que copia e cola material do site. (Por favor, não generalizem essa visão).

E a comunicação de governo no mundo digital, como fica?

Em meio à cena descrita essa foi a pergunta inevitável. Da mesma forma que o colega Emerson Luís, assessor de comunicação  da Dataprev e uma das poucas “luzes” ali presentes, descreve o evento em seu blog e relata como o tema mídias sociais deixou todos atônitos, eu fiquei pessoalmente atônita com a falta de uma real política de comunicação do governo para o mundo digital. Afinal, o que o governo e suas diversas entidades quer dizer para os 62 milhões de internautas brasileiros? Sob qual imagem e identidade de marca? Qual o branding e a reputação digital que sustentam a presença do “.gov.br” na rede? Qual o plano de comunicação digital, respectivas ferramentas, plataformas e narrativas?

Fica um tanto difícil responder a essas indagações quando vi ali o próprio ministro da SECOM dizer alto e em bom som na abertura do evento o discurso que corre em uníssono por entre os jornalistas de velha cêpa (acho que todos combinaram entre si): o público quer, precisa e não conhece outra forma de ser informado a não ser pela fórmula de notícias 24×7, preferencialmente apresentadas por um jornal impresso e, sempre editadas (já que o público precisa da edição para entender o mundo…). Em tempo: de forma alguma nego ou rejeito o bom e velho jornalismo (sou eterna leitora de meu Estadão impresso todas as manhãs). Ocorre que esse formato hoje não é único e nem hegemônico. Existem outras formas e fontes de informação (as digitais, as sociais) que entram na cesta de escolhas informativas de todos nós. É preciso saber conviver com a diversidade.

Permanece a dificuldade em responder às tais indgações básicas quando vemos a proposta do Blog do Planalto. A visualização de conteúdo apresentada explicitou, de cara, material editado e com narrativa piramidal do meio impresso. E aquelas ferramentas mínimas de um blog? O uso de hiperlinks? Uma nuvem de tags? (até tinha, a nuvem de assuntos, mas escondida ao final da terceira tela de rolagem) Posts mais populares? Enfim, coisas básicas para um blog que já na concepção definiu a não aceitação de comentários (OK, questionável, mas aceitável diante da responsabilidade da empreitada). Ficou a percepção de que era preciso ter um blog como passaporte para o mundo contemporâneo da rede. Mas, qual a sua política editorial? Em tempo: é pública a escolha, por meio de edital da SECOM, de uma empresa que é responsável pela execução do Portal do Governo e por sua comunicação digital. Estão trabalhando, aguardemos. Mais em tempo: é visível a seriedade da equipe da SECOM sobre o tema.

Rumos e possibilidades

Minha postura no mundo é de otimismo. Em qualquer situação.

Evidente que em termos de mundo das redes não é possível correr atrás do prejuízo. E, no caso da comunicação digital de governo no país o déficit é grande: há que se mudar a cultura em todos os níveis; há que se melhorar primeiro as ações 1.0, já que muitos websites, portais estão aquém do estado-da-arte; há que se evangelizar (e treinar explícitamente) pessoas, funcionários, assessores, colaboradores; há que se entrar no ritmo digital.

Não serão blogs soltos no ciberespaço que resolverão um processo muito mais amplo. O potencial comunicativo de governos na rede é imenso. No exterior existem organismos profissionais que estudam, analisam e aconselham ações de governos digitais. No Brasil também existem iniciativas, ainda tímidas.

Se não é possível correr atrás do prejuízo o melhor é queimar etapas e tomar o bonde num ponto mais adiante.

(Beth Saad)

PS: para saber um pouco mais do que rolou no eveno vejam a #prmidias no twitter.

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