
Imagem de Satélite - National Mall, Washington na hora da posse de Obama
A cobertura integrada CNN/Facebook do evento Obama Inauguration colocou em pauta o exercício do compartilhamento em tempo real mais puro - sem fronteiras; múltiplos fusos horários, etnias e culturas; e muita diversidade de opiniões, de pessoas próximas e de estranhos - tudo disponível na mesma interface, acompanhando o streamming audiovisual que bateu recordes de audiência.
Penso que para quem não é aficcionado, compreender a função de uma rede social, inserir-se na sua dinâmica e tornar-se um participante ativo é algo que necessita de motivação, concretitude e maleabilidade, mesmo em tempos de uma internet bastante presente no dia-a-dia coletivo (a internet imanente). Os mais de 13 milhões de stremmings da CNN/Facebook podem representar o elemento concreto, ou o efeito-demonstração para que cada vez mais o mundo das redes sociais também seja tão imanente quanto à própria rede.
Existem aqui alguns aspectos que valem a pena comentar: a questão tecnológica como desencadeadora de fatos sociais e de aglutinação informativa, deixando para trás o aspecto do determinismo; o contexto sócio-antropológico das redes sociais na web; e os aspectos de modelo de negócios e concentração de tráfego que viabilizaram a parceria.
Nesse post vou me concentrar mais na questão social sustentada pela tecnologia sem, entretanto, desconsiderar os demais pontos que serão mais bem abordados em novos posts desse Intermezzo.
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Será que valeu a pena assistir à posse pelo CNN/Facebook? Teria sido melhor acompanhar de casa, no sofá, pela Globo, com a tradução simultânea? Ou pela própria CNN no cabo, ou ainda, desconectar-se de vez? Como optei pela rede social, digo que valeu, e justifico isso diante do diferencial oferecido pelas ferramentas da rede social - as conversações.
Ao final da cerimonia, o colega professor espanhol José Luis Orihuela manifestou-se para a nossa comunidade: “Muy buena experiencia seguir el evento con la comunidad de amigos en Facebook“. Essa boa experiência pode ser social e tecnicamente avaliada como uma revalorização da relação informação/comunicação diante da complexidade do mundo contemporâneo (uma leitura de nossa sociedade por Derrik de Kerckhove). O autor, citado por Vítor Oliveira Jorge, da Universidade do Porto, diz: “Hoje, só podemos pensar se conseguirmos sair dos estereótipos e dos arquétipos da nossa cultura tradicional. Ora, esse foi sempre o desafio da antropologia. É por isso que os seus conhecimentos e a sua experiência são fulcrais ao entendimento da contemporaneidade”.
Tal revalorização pode ser observada ao vivo por quem participou da transmissão CNN/Facebook. Nessa linha, dentre as manifestações de minha comunidade no Facebook, destaco as dos colegas Daniela Bertocchi (a Dani) criadora e autora desse Intermezzo, Francisco Madureira (o Madu), jornalista responsável pelo UOL Tecnologia e meu orientando na ECA-USP e Nuno Vargas jornalista e webdesigner de Portugal: todas reforçam o aspecto das conversações.
Diz a Dani: “Estive com a minha comunidade, na mesma interface online, acompanhando o mesmo evento ao mesmo tempo, tecendo comentários juntos, criando um discurso paralelo à cobertura tradicional da TV. E note-se que há uma diferença entre os botões “Everyone watching” e o “Friends”. Coisas distintas. Não é uma mesma coisa que colocar um chat entre os usuários. E tem o Twitter…enfim, fez história!!!“.
O Nuno destaca a multiplicidade de ferramentas aplicadas num evento diferenciado na rede: “Obviamente, a novidade aqui não foi o chat. O que diferenciou, penso eu, foi ter um live streamming + social network como o Facebook incorporado no streamming pannel + um evento quase inigualável decorrendo + a possibilidade de inserir twitters próprios. Várias plataformas e vários espectros entre o público e o mais privado ou “friendly”. Mushing, crossing and producing content!”
Por outro lado, não podemos nos esquecer da colocação do Madu: será que isso não é bem parecido com que o Terra, por exemplo, já fazia há pelo menos três anos disponibilizando chats junto com suas coberturas ao vivo? Ou seja, será que estamos falando de inovação?

É preciso ter cuidado ao discutir inovação no mundo digital, onde o ciclo de vida tecnológico é extremamente curto, levando os mais desavisados a pequenas confusões semânticas (já que inovação não é a mesma coisa que novidade, por exemplo) ou a escolhas conceituais inadequadas à complexidade contemporânea. Apesar das TIC’s serem unamimemente consideradas como uma inovação tecnológica em constante mutação, estas quando aplicadas a sistemas e redes coletivos, como é o caso das redes sociais, entram num contexto mais recente que levam em conta as inovações no âmbito das ciências sociais. E aqui, a perspectiva economica dos Schumpeteriamos perde a sustentação.
Se considerarmos a agenda da inovação tecnológica social, o evento Obama no Facebook empreendeu o “pulo do gato” à perfeição, a inovação ocorreu pela tecnologia sustentando as relações mais do que pela tecnologia possibilitando um streamming de qualidade A ou B, por exemplo. O pesquisador Thales de Andrade tem excelente texto sobre o tema, e diz: “A proposta dos cientistas sociais interessados em compreender os rumos da inovação na sociedade contemporânea significa uma mudança de enfoque analítico, voltado agora para os elementos intangíveis e cambiantes da prática tecnológica e social, em que as relações são mais fundamentais do que as coisas, em que os processos superam os resultados em termos de intelegibilidade das práticas sociais“.
Enfim, o compartilhamento experienciado pelo ambiente CNN + Facebook — e note-se que a cobertura da posse do Obama nesta terça, 20, gerou 136 milhões de pagesviews e 21,3 milhões de streams de vídeo, com pico, durante o discurso do presidente, de 1,3 milhão de vídeos simultâneos — constituiu-se num “case” exemplar integrador de plataformas, de inovação social e um marco para a web 2.0 como canal de conversação e comunicação coletiva. Valeu!
(Beth Saad)

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em resumo: “é legal ver a opinião de um monte de gente” e “opinião de gente diferente faz a gente ver tudo de um jeito diferente”
e “relações são mais fundamentais do que as coisas” não é nada novo. tá lá no tio carlos marcos
artigo MUITO interessante. parabéns pela qualidade.
Agradeço o incentivo!